Debat macrofilosòfic general

May 25, 2019

REVALORIZAÇÂO DA TÉCNICA E DO PRODUTIVO


            Até a modernidade, incluindo a Idade Média, foi outorgado aos saberes técnicos (techne), produtivos (poiesis) e mecânicos (mechanomai) um pobre valor de verdade, formativo e educativo. Eles foram menosprezados face à ciência (episteme), à práxis (política) ou mesmo à contemplação filosófica. Porém, desde o final da Idade Média, ainda que geralmente em setores alheios à alta cultura universitária, vai crescendo uma difusa mentalidade mais pragmática e que vai reivindicando também os saberes artesanais, manuais, técnicos, produtivos e mecânicos. Seguramente a moderna Revolução Industrial não teria sido possível sem a sólida e relativamente nova aliança entre a nova ciência físico-matemática e os estudos técnicos e as engenharias. Porém, a partir do século XIX tal aliança se tornou tão poderosa que lhe é aplicável o neologismo atual “tecnociência”.
            Ora bem, ao final da Idade Média e até bem adiantado o século XVIII, os saberes técnicos não são reconhecidos (muito pelo contrário) como relevantes para o ideal de vida boa. Tampouco são valorizadas para a distinção social ou para a formação de um autêntico cavalheiro, pois mais frequentemente são associadas a classes subalternas, de artesãos, de ofícios e trabalhadores basicamente manuais. No entanto, normalmente fora das universidades, das altas academias e voltadas para esses grupos subalternos, começam a criar-se instituições com programas mais ou menos informais dedicados aos saberes técnicos, pragmáticos, artesanais ou engenharias. Tal tradição em crescente expansão irá superando lentamente a subordinação e o relativo menosprezo com que é acolhida pela nova ciência físico-matemática (em princípio muito teórica e relativamente pouco experimental) e a filosofia vinculada a ela.
            Há muitos exemplos relevantes de como a tradição mais empírica, manual e experimental vai adquirindo cotas de maior reconhecimento. É o caso por exemplo do humanista Joan Lluís Vives (1492 – 1540) que em 1531 reivindica prestar maior atenção a questões mecânicas e técnicas, recordando ironicamente que aqueles que a elas se dedicaram não elucubraram enteléquias metafísicas como muitos filósofos. O historiador Paolo Rossi destaca também a defesa do trabalho técnico e mecânico de Georg Bauer em De re Metallica (1556) e Guidobaldo del Monte em Mechanicorum libri (1557).[1]
            De sua parte, o médico e alquimista Paracelso (1493 – 1541) publica em 1536 seu Grande livro da cirurgia, criticando a medicina tradicional (demasiado metafísica e livresca) e defendendo a experimentação. Essa mesma tendência se percebe em Andrea Vesalio e sua famosa obra – com magníficas gravuras explicativas – De humani corporis fabrica (1543).
            Ainda naquela época, a medicina e a anatomia eram muito teóricas e as dissecações eram executadas por subalternos, enquanto o “médico” permanecia afastado do cadáver, sentado em sua cátedra e lendo-comentando os textos de Galeno. Porém em Vesalio vermos já uma tendência a uma nova perspectiva de saber, a um só tempo teórico e prático, que une conceitualização racional e experimentação direta e manual. Assim, em seu famoso Prefácio, denuncia a
            dicotomia criada na profissão de médico: por uma parte, um professor que permanece cuidadosamente afastado do cadáver que vai dissecar e fala desde o alto de uma cátedra consultando um livro, por outra parte, um dissecador que desconhece a teoria e que se rebaixa à categoria de carniceiro.[2]
            Também critica o desprezo do trabalho manual “que faz que os médicos se limitem a prescrever fármacos, sangrias ou dietas e deixem a intervenção direta” aos que “chamam cirurgiões e apenas consideram como escravos”.[3]
            Supera-se, pois, a dicotomia medieval que relega a dissecação e as operações médicas aos “barbeiros”, resultando que “não só os médicos percam o conhecimento das vísceras, mas que percam também completamente a habilidade de dissecar”, enquanto que “repetem até o aborrecimento coisas que não observaram empiricamente, mas que aprenderam de memória nos livros”. Vesalio denuncia (Prefácio a De humani corporis fabrica e Carta a G. Oporino) que “nesta confusão se apresentam aos estudantes menos coisas do que um carniceiro poderia ensinar a um médico desde seu mostrador”.
            Ainda que pareça um passo limitado e um campo muito óbvio, não o é em absoluto e questiona uma larga tradição na qual a prática e a experiência direta do objeto material está nas mãos de iletrados que desconhecem a teoria, enquanto que os que a conhecem menosprezam o corpo, a anatomia empírica e o contato manual. Tão só por essa dicotomia radical entre teoria e aplicação, entre diagnóstico e execução, entre autoridade e exame direto, se aplica a perpetuação de erros de Galeno até pleno século XVI e que Vesalio afirme que pode provar em uma só demonstração anatômica que aquele “se equivoca mais de duzentas vezes na descrição correta das partes, a harmonia, o uso e a função do corpo humano”.[4]
            Essa profunda mudança em direção a uma concepção do saber que revaloriza o empírico, pragmático, produtivo, experimental e calculável se produz evidentemente sobre uma nova base social que a promove e sustenta. Certamente e cada vez mais, os grandes promotores, mecenas ou empregadores dos expertos artesanais, mecânicos e engenheiros não são a Igreja nem as universidades religiosas, mas os nascentes Estados (conselhos e ministros, cortes e burocracia, grandes nobres e militares etc.), bem como o mundo burguês do comércio, os grêmios artesanais e a incipiente indústria.
            Como sucede sempre, o novo tipo de saber serve a outras necessidades e – normalmente – é promovido por grupos sociais específicos (alguns tão novos e emergentes quanto esse saber). Se a sociedade muda, também o fazem os tipos de saber mais demandados por ela, fazendo que mude o sentido e a finalidade do saber. Não é de se estranhar que passem a segundo plano a contemplação, o cuidado da alma, a salvação eterna, o tipo ocioso de “vida boa” e, também, a “distinção” social dada pelo saber improdutivo; enquanto que se prioriza claramente a função utilitária, produtiva, que atende ao valor de mercado, que vincula poder e saber, que enriquece economicamente... Cada vez se enfatiza menos que o saber deve levar à salvação, deve marcar o status social ou deve estar vinculado às contemplativas e teóricas “artes liberais” tradicionais. Cada vez se enfatiza mais que o saber deve ser produtivo, permitir o enriquecimento, deve ser eficaz dominando os fenômenos naturais e deve abrir passo a novas profissões úteis e lucrativas.
            Naturalmente, nem todas essas alterações se produzem em um mesmo momento. Assim, a nobreza podia em muitos casos rechaçar o trabalho e os saberes mais pragmáticos e, no entanto, exigir cada vez mais a seus membros ou servidores diretos uma formação eficaz sobre a arte da guerra, a diplomacia, o mando da gente, a fortificação, a administração da fazenda, a organização pública e privada, o bom estilo de escrita e os bons modos etc. De tal maneira que, inclusive nas classes mais conservadoras, podemos dizer que o saber minimiza o ocioso, ascético, contemplativo e de virtudes estamentais para maximizar uma certa percepção da utilidade, que serve para fazer, para obter resultados e, em definitivo, para dominar as forças naturais e potencializar as humanas.
            Nessa esteira, nascerá a distinção tardomoderna entre humanidades e ciências matemático-experimentais. Será um processo muito lento, que só culminará em uma efetiva separação em fins do século XIX. Todos os grandes heróis da Revolução Científica, de Copérnico a Newton, passando por Kepler, Galileu, Bacon, Descartes e Leibniz, todos se consideravam antes de mais nada e fundamentalmente filósofos. Incluso Newton, que já se nega a fingir hipóteses metafísicas em sua física, se autodefinia basicamente como um “filósofo da natureza” e tinha muitas preocupações esotéricas, alquimistas e teológicas que não distinguia demasiado das “científicas”.
            Descartes critica tanto humanistas quanto escolásticos, porém lê Montaigne com muito gosto e se esforça para que seu sistema, com fundamento metafísico (desenvolvido detalhadamente em suas Meditações metafísicas) seja aceito e “abençoado” pela Sorbonne. Em sua utopia New Atlantis, o chanceler inglês Francis Bacon imagina uma sociedade de sábios vinculados ao governo político que será o modelo explícito da Royal Society de Londres. Leibniz, seguindo intuições de Ramon Llull, estudará as condições de um cálculo ou mathesis universalis e de uma linguagem perfeita que estão nas bases da informática atual. E a Enciclopédia francesa de Diderot e D’Alembert unirão – se pretende que harmoniosamente – a filosofia e os saberes teóricos com os mais práticos, técnicos e inclusive os ofícios.
            Isso ocorre inclusive no mui matematizante Galileu, ainda que Bertrand Gille o vincule com a tradição técnica e com engenheiros como Benedetti (1530 – 1590), ao qual denomina “o mais próximo à ciência moderna, o predecessor de Galileu”[5]. Ainda que, indubitavelmente, não fosse o que mais valorizava em suas investigações, é claro que Galileu não tem nenhum problema para fazer uso do telescópio a partir de 1609. Ademais, o melhora rapidamente e de uma maneira espetacular, com o que ganhou um concurso junto às autoridades venezianas, que pensavam haver comprado um invento totalmente original, quando na realidade era uma muito melhorada versão de um rudimentar aparato que servia – literalmente – ao “entretenimento”.
            Porém, em todo caso e como destaca Paolo Rossi:
            O que supõe uma revolução é a confiança de Galileu em um instrumento nascido no mundo dos mecânicos, cujos progressos se deviam somente à prática. (…) Ele o utiliza e o dirige ao céu com espírito metódico e com mentalidade científica, o transforma em instrumento científico. Para dar crédito ao que se vê com o telescópio é preciso crer que esse instrumento serve não para deformar, mas para potencializar a visão. É preciso contemplar os instrumentos como uma fonte de conhecimento, abandonar o antigo e arraigado ponto de vista antropocêntrico, que considera a visão natural do olho humano como um critério absoluto de conhecimento.[6]
            Precisamente porque Aristóteles, e com ele a grande tradição europeia, considerava a visão como o mais intelectual dos sentidos e, portanto, tendia a identificá-la com a perspectiva do intelecto, um instrumento destinado a melhorá-la parecia atentar contra a própria inteligência. Isso aumentou as reticências em aceitar a veracidade das observações telescópicas, como sintetiza Steven Shapin.[7] Sem embargo, telescópio, microscópio e muitos outros instrumentos básicos de observação e experimentação científica se sucederam rapidamente, configurando o laboratório científico moderno.
            Adiante, a mentalidade científica se baseará em obrigar a natureza a confessar seus segredos e, com tal objetivo, potencializar a inquisição humana em todo o possível. Já não se tratava de esperar atentamente que a natureza se desvelasse (aletheia ou “verdade” grega, que etimologicamente significa “desvelamento”). E ali onde não podia chegar a apreciação direta dos sentidos, se tratava de construir instrumentos que pudessem detectar e quantificar os fenômenos que se produzissem.
            Pois bem, esta mentalidade, que de maneira difusa e sem grandes pretensões era bastante antiga na tradição artesanal, só triunfou plenamente e logrou o reconhecimento da alta cultura com o desenvolvimento da modernidade. Sem embargo, foi significativa, pois permitiu decisivas aplicações tecnológicas antes e – sobretudo – depois da Revolução industrial. Pois os países que queriam liderar a história, no econômico, no militar e inclusive no cultural, não podiam doravante prescindir delas.
            Significativamente, as primeiras potências coloniais, Portugal e Espanha, perderam rapidamente sua liderança mundial (frente a outras como Holanda, França e sobretudo Grã-Bretanha) precisamente por seus déficits nessa tradição tecnológica, científica e produtiva. A modernidade demonstrou que ela é mais poderosa inclusive que o enorme fluxo de ouro e prata americanos, pois sem essa base tecnocientífica e produtiva terminava perdendo-se miseravelmente. É o que, como disse Carlo Cipolla[8] observa que a Espanha do século XVII, depois do boom do Século de Ouro, tinha grande abundância de homens de letras e grande escassez de artesãos. O país superabundava em poetas sem emprego, porém tinha que importar a maior parte dos produtos manufaturados de que precisava.
            Como vimos, temos que superar a visão tradicional que menosprezava a importância da tradição produtiva e artesanal que, frequentemente, se baseava em aplicações tecnológicas complexas – ainda que sobre bases teóricas às vezes simples. Tal tradição se viu muito potencializada quando se aliou com as grandes teorias matematizadas da ciência e com o apoio dos Estados modernos e suas elites. Prontamente a eficácia performativa e produtiva da tecnologia civil e militar foi percebida pelos monarcas e por seus ministros, e superando os receios tradicionais tanto da aristocracia quanto da Igreja, foi o grande patrocinador de grandes avanços (especialmente nos setores militar e naval). Funcionaram como ponte, como diz Eisenstadt, elites “secundárias” relativamente próximas do centro e muito eficazes, porém influenciadas por inovadores rebeldes e heterodoxias religiosas e políticas[9].
            Há, pois, que se proceder com muito cuidado para não se cometer anacronismos e não se confundir os debates de teólogos contra filósofos, mecânicos contra especulativos, metafísicos contra antimetafísicos... que vão sucedendo-se desde finais da Idade Média até bem adiantada a Idade moderna. Por exemplo, só a partir de finais do século XVIII, com os inícios da Revolução Industrial e com a aparição de escolas parapositivistas, começa a impor-se uma distinção clara entre humanidades (que incluiria a filosofia) e as ciências (que incluiriam também os saberes técnicos). Pensemos que significativamente a partir de 1781 Kant começa a construir seu sistema crítico, no qual propõe estudar os distintos fundamentos da ciência, da ética, da estética, da teologia natural... E temos que esperar praticamente até o início do século XX, para que estejam perfeitamente delimitadas a distinção entre humanidades, ciências sociais e tecnociências.     



[1] Paolo Rossi, El nacimiento de la ciencia moderna en europa, trad. Maria Pons, Barcelona, Crítica, 1997, p. 26ss.
[2] Ibidem, p. 40.
[3] Ibidem, p. 56.
[4] Ibidem, p. 56.
[5] Gille, Les ingénieurs de la Renaissance, p. 214ss.
[6] Rossi, El nacimiento de la ciencia moderna en europa, p. 27.
[7] Steven Shapin, La revolución científica: una interpretación alternativa, trad. Jose Romo Feito, Barcelona, Paidos Iberica, 2000, p. 99ss.
[8] Carlo Cippola, The economic decline of Empires, London, Methuen, 1970, p. 127
[9] Shmuel Noah Eisenstadt, Las grandes revoluciones y las civilizaciones de la modernidade, Madrid, Centro de Estudios Constitucionales, 2007, p. 100.



Do artigo “INFLUÊNCIAS MEDIEVAIS E INOVAÇÕES MODERNAS. UMA ANÁLISE MACROFILOSÓFICA” de Gonçal Mayos (traído por Karine Salgado) em ENTRE O MEDIEVAL E O MODERNO: REPRESENTAÇÕES E RUPTURAS, FILOSOFIA, CULTURA E DIREITO de KARINE SALGADO E ARNO DAL RI JÚNIOR (Organizadores), EDITORA UFMG, BELO HORIZONTE, 2019.

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